Arquivo para Outubro, 2007

A fábula do cotidiano rotineiro

Crônica inspirada na música Valsinha, de Chico Buarque. Baseada em como as pessoas se deixam levar por uma rotina e esquecem de ver o resto do mundo.

A maioria dos finais nos contos de fadas sentencia que as pessoas vivem felizes para sempre. Precisam passar por trabalhos e desafios, para provar o mérito da alegria. Uma bela lição passada para as crianças que, infelizmente, crescem e deixam esse a assunto para as próximas gerações. Tudo culpa de uma tal responsabilidades com “coisas de gente grande”, que dilui a sensibilidade na preocupação com os afazeres cotidianos. 

A rotina, que sufoca nossas vontades, sistematiza tudo no dia. A gente acorda pensando no final do dia, das atividades no meio tempo, para daí lembrar daquele compromisso, para correr para não se atrasar e, se sobrar um tempo, parar na frente do espelho e conseguir perceber que está na hora de dar um trato na aparência. De tanta coisa, mal sobra tempo para a gente mesmo, quem dirá para as pessoas ao nosso redor. 

Se a vida for esquematizada como no um mais um, ela vai ser tão empolgante como uma aula de matemática aplicada. Para combater isso vale até aqueles conselhos clássicos, como fazer ou aprender uma coisa nova por dia. Porém, a resposta não está em só seguir fórmulas, mas sim fazer da sua própria maneira. 

Não adianta só acreditar que vai encontrar um pote de ouro no final do arco-íris, ou que vai um príncipe em um cavalo branco vai te levar para longe, é preciso agir. E não importa aquilo que os outros pensam, se o isso que você faz traz sua felicidade sem interferir na dos outros.  

Mas se você acha tudo isso uma fantasia como dos contos de crianças, tomara que sobre um espaço em sua agenda para as consultas ao cardiologista que estão por vir. Pense bem, aproveite os bons momentos, para que sua vida não se torne uma moral de história daquelas que as crianças não gostam de ouvir.

O ponto é o limite

Se me pedissem para definir a sociedade em uma metáfora, coisa que já seria um tanto quando redundante, eu diria que ela é como um ônibus, daqueles que tenho que pegar todos os dias. Não pelo caminho sempre certo que seguem ou a sua logística aplicada para distribuir certas pessoas em determinados lugares. Muito pelo contrário, pois é naquele ambiente de transição que está a base da vida em grupo.  

Por começar na posição dos tripulantes. Há um motorista, que conduz a vida e toma as decisões por todos os outros naquele momento, mas, como avisa a placa, esta acessível somente para assuntos imprescindíveis, mais ou menos como os políticos. Tem também um cobrador, que representa as forças opressoras e de controle das massas, cobrando as passagens e bradando de seu trono privilegiado o “passinho pra frente”. Já os outros são meros passageiros. 

A fauna usuária do serviço é o grupo mais interessante de ser observado. Como o perdido, que a cada ponto faz como aquelas crianças para o cobrador ou para o companheiro de banco, pedindo “tá chegando?”. Tem também a evangélica, que é aquela figura atarracada de saia, com um coque tão preso no cabelo que chega a saltar as órbitas dos olhos, que só mesmo com a graça de Deus consegue passar de ponta-a-ponta em um ônibus lotado. 

E por falar em lotação, há momentos em que nem o pudor ou uma síndrome de claustrofobia conseguem espaço. O calor humano é denso no sentido mais olfativo da coisa, em que é relativo ao número de braços erguidos e o prazo de validade do desodorante dos mesmos. Ainda, se você não tiver a sorte de ir acomodado em um banco, seu corpo vai roçar a cada curva e parada em sinal, mais ou menos como uma lambada dançada por um epilético. 

Para a boa convivência em grupo, há algumas regras que prezam o bem-estar: oferecer o lugar aos mais velhos, gestantes e deficientes; não pagar passagem com notas maiores do que dez reais, para agilizar o troco; e, um dos mais importantes, ser paciente e resistente como uma rocha, para levar bolsadas, cotoveladas, bundadas e outros golpes involuntários. 

O tempo que você precisa ficar dentro de um ônibus pode ser muito curioso e até mesmo útil, mesmo que a trilha sonora seja aquele pancadão que leve seu humor ao nocaute. Lá você conhece os mais célebres dramas anônimos, do amigo do amigo da vizinha de fulano, ou aprende aquele plano mirabolante de economizar no orçamento doméstico pegando papel higiênico da faculdade. 

Tudo isso são coisas tão interessantes quanto a novela das oito. É só a maioria que não presta muito bem a atenção. Eu não sei até que ponto as pessoas querem chegar. Tudo o que sei é que eu devo saber muito bem até onde vou, para que no caminho eu não interfira no dos outros. Afinal, a vida social não é uma mera viagem nesse caso.

Joel Minusculi
Que pega ônibus todo santo dia